segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A VIDA E A ARTE

* Recorte de diário. Dia 10 de agosto de 1998. Hoje acordei com muita dor na coluna, fazendo latejar até a minha nuca. Não há como desconsiderar a relação entre as estruturas que construo em ferro para sustentar a madeira ou o barro e o peso das obrigações, dos compromissos, das metas que venho carregando nas costas. Quanto suporta uma estrutura? Sabemos da forte relação que existe entre a vida e a arte, no entanto, acomodamos esse conhecimento como tantos outros que nasceram na subjetividade, em algum lugar do inquestionável. Se houver exercício do fazer ou contemplar a arte, em algum momento ele irá expor sinais tão fortes dessa relação (vida e arte) que invadiremos o lugar aonde acomodávamos esse conhecimento, para vivermos as consequentes e saudáveis mudanças que essas antigas “casas de marimbondo” irão provocar. Talvez seja por isso que muitos adultos resistem tanto à experiência de contato com a arte. Ela provoca mudanças. A imposição ou manipulação de valores numa sociedade, como é o caso dos valores produzidos pelo capitalismo, distancia o indivíduo e a sociedade de suas verdadeiras escolhas. No entanto, com a arte nos reaproximamos de pensamentos legítimos, multiplicamos relações entre assuntos, e esses por sua vez passam a se conectar com outros que surgem, e assim, indefinidamente. Assim se articula o processo criativo. Alguns desses encontros com a legítima opinião (casas de marimbondo), antes tão bem guardadas em lugares do controle, trazem a luz o frescor do entendimento e da aceitação de determinadas condutas que antes, sem qualquer reflexão, não aceitávamos em nossas vidas. O contato com a legitimidade reduz o sofrimento que sentíamos por supostas grandes coisas, sinalizando para a existência de outras direções, outros caminhos. Todo movimento de mudança permeia a estrutura de nossa identidade dando a ela dinamismo e lugar de representação. A arte não só provoca esse movimento como se alimenta dele durante seu processo de renovação constante. Será que pertenço às minhas opiniões ou a um controle externo que determina minhas escolhas? Consumimos boa parte do que não desejamos, mas nem sempre conscientes, porque não fomos acostumados a questionar nem mesmo os próprios impulsos, apenas reprimi-los. O filme “Matrix” nos adverte, através de uma linguagem ainda ficcional para a existência de um mundo controlador paralelo. A fragilidade do superficial, que é mantido sem questionamento, costuma nos negar o direito às verdadeiras escolhas. A idéia de não aderirmos a certos modismos ou não aplaudirmos um senso comum pode nos infringir o castigo do não pertencimento social, principalmente para aqueles que não tenham conquistado uma identidade com um mínimo de consistência que os estruture durante o caminho dessas contestações. Há um choque entre o legítimo e o pertencimento social. Por isso, para pertencer, muitas vezes abre-se mão da autenticidade. Neste espaço criado, entre o desejo individual e o desejo de se manter desejado pelo outro (pessoa ou sociedade), vai sendo construído um universo de contradições, inverdades e inversões. Assim como na modelagem de uma escultura, acredito que também na vida há a estrutura dos desejos e uma massa de possibilidades para se tentar cobrir essa estrutura, podendo seguir ou não seus contornos. Antes do período em que passei a produzir uma série de esculturas a partir do tema “mergulhos”, fazia uso de um olhar mais externo, que me dirigia para soluções mais técnicas do que conceituais. O tema “mergulho” marca uma mudança, quando passei a buscar soluções no interno, na reflexão para as minhas esculturas. Essa transformação me levou a expor as estruturas das esculturas, fazendo com que elas não apenas cumprissem o papel sustentador de minhas formas para se transformarem nas próprias formas de linguagem.

sábado, 17 de dezembro de 2011

BELEZA E ARTE

A estreita relação que estabelecemos, entre beleza e arte, pode se tornar um equívoco, principalmente quando os critérios que determinam o que é belo estão comprometidos com uma estética promotora do consumo. Toda unanimidade é especialmente valiosa para o exercício do consumo. Já para o indivíduo ela uniformiza o pensamento afastando-o da opinião e da ousadia. Infelizmente, há uma estratégia que alimenta essa “estética da unanimidade”. Ela é a nossa ordem vigente, que apenas se diferencia dependendo do grupo sócio-econômico ao qual pertence. É nítido como as ações arte-educacionais sofrem com a interferência dessa estética que só legitima aquilo ou aquele que cumpre seus padrões. Boa parte do meu tempo como arte-educador dedico à revisão ou à desconstrução de alguns critérios de beleza trazidos pelos meus alunos. Enxergo esses critérios, muitas vezes, como reduzidores de seus potenciais expressivos. Meu recurso frente à força dessas “verdades” vendidas pela mídia, é a provocação. No entanto, devo confessar: provocar é dar início a uma batalha ou desistir. Não se trata de uma batalha entre professor e aluno, mas entre esse indivíduo que vem sendo artificialmente construído pela sociedade e ele mesmo. Uma batalha pela procura de seus valores originais, legítimos. Também no universo infantil, esse comportamento de aceitação de uma estética comum, sem diferenças e particularidades, vem acontecendo cada vez mais cedo, comprometendo sensivelmente os processos criativos das crianças. A busca por perfeição, tornou-se, para muitas, quase uma obsessão. Seria talvez um acertar para pertencer. Como não existem acertos na arte, resta o pertencimento como meta e o consumo como manutenção dessa meta. Evidentemente, as exigências do mundo adulto contemporâneo, com suas estratégias de conquista, excelência e melhor “performance”, são promotoras de competição e consequentemente também, grandes responsáveis por esse processo de afastamento entre a criança e o criativo. Restam cópias, tentativas de realismo, alguns artesanatos e muitos estereótipos para serem chamados de aulas de arte. O que se quer encontrar numa manifestação artística? Pessoalmente, quando contemplo, quando assisto, quero a verdade. Seja qual for. A verdade simbólica, da criança ou do artista. Quero o que o representa ou que parece falar do autor e pelo autor. Não preciso compreender ou concordar. Que seja mesmo absurdo... que permaneça ou não, mas sempre que for possível me instigue, me leve a outros olhares, outras formas de pensar ou mesmo aos meus vazios, porque eles me enriquecem. Quem sabe, esses produtos me instiguem a ver e sentir novas maneiras de nomear beleza.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

EFÊMERAS PERMANÊNCIAS

Realmente vivemos a cultura do descarte e com ela a pasteurização dos critérios, das condutas, dos significados.
Desejos vêm se tornando sinônimo de objetivos. Talvez por isso as metas morram tão cedo, logo após a conquista, e sem deixar lembranças.
Na verdade, tudo se tornou mais efêmero. Valores que possam ser estruturais tornaram-se irrelevantes e vêm sendo substituídos pelos “efeitos que causam” e pela rapidez de resultados. Hoje, mais vale a impressão que uma “coisa” pode causar, do que a possível consistência nela contida. O mais triste disso tudo é que o efeito dessa substituição não promove qualquer desenvolvimento no sujeito, no máximo o decora externamente.
A arte vem denunciando isso faz algum tempo, quando utiliza a efemeridade como matéria em grande parte de suas ações e produtos.
Na comunicação tecnológica, as postagens nas redes sociais vêm nos mostrando o valor que é depositado às idéias, acontecimentos e informações contemporâneas. Tudo parece ter o tempo de vida e a importância medida pela permanência na primeira página.
Assim, sob o domínio do efêmero, se constroem e desaparecem valores. Pessoas talentosas, ou que parecem ser, são empurradas para se tornarem o resumo de si mesmas: as chamadas celebridades. Essa mesma “consistência” que coloca hoje no pódio a “bola da vez” busca outras a seguir para alimentar o “frenesi” das trocas.
Mas, o que fazer se nessa dinâmica voraz o que é descartado por acaso for pessoa?
Se não houver reflexão, mas sim a insistência em se manter pertencente a esse sistema, melhor mesmo essa pessoa tentar se reinventar; Quem sabe mudando a embalagem o público volta a consumi-la?
No entanto, se houver consciência dessa efemeridade e suas sérias consequências no longo prazo, pode-se promover uma mudança na qual uma meta importante a ser alcançada é a legitimidade. Isso me pertence? É isso que eu quero ou preciso?
Não vou me cansar de denunciar a fragilidade e irresponsabilidade (consigo mesmo e com o outro) tão presentes no indivíduo contemporâneo. Também não vou me cansar de sinalizar para que se enxergue a importância que tem a arte como recurso fortalecedor e quanto ela pode ser contribuidora para uma revisão da responsabilidade que todo indivíduo tem com si mesmo, com o outro e o meio ambiente. O contato com a arte, seja através da ação artística em si ou como exercício de contemplação, vai muito além de ver ou sentir a beleza. Dá ao indivíduo a oportunidade da reflexão sobre si mesmo e sobre o mundo ao qual estamos todos inseridos. A arte promove o pensar a própria vida. Essa relação com a subjetividade que ela propõe, é também o contraponto de tudo que a nossa sociedade manipula e que insiste em coisificar e descartar.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

FAXINA

Uma salinha desativada, uma garagem mofada, um cantinho qualquer da escola, pode abrigar a aula de artes. Isso quando existem as tais aulas de arte.
Mas que lugar de indigência é esse que costuma ocupar a arte dentro do processo educacional?
Já fui, por muito tempo, solidário com os meus colegas arte-educadores, mas hoje, penso que somos nós os responsáveis por essas mambembes conquistas. Melhor não ocupar esse lugar de vítima, mas pensar, refletir sobre o lugar da arte e suas possibilidades estendidas para a educação.
O que eu quero provocar nos meus alunos?
O que eu quero provocar nos meus colegas professores?

Sim, porque a arte é provocação, não é a mesmice das concordâncias com o estabelecido. Não é apoio visual para as aulas de geografia ou fonte de presentinhos para o dia das mães. Desculpem-me, mas isso que muito se faz e ainda por cima é nomeado de aula de artes, cabe mesmo num cantinho qualquer.
Há uma fome de técnicas nos professores de arte, como se elas fossem a principal nutrição motivadora para suas atuações profissionais.
O que eu dou pros meus alunos na próxima aula?
Sugiro rever essa dúvida para:
O que eu posso provocar nos meus alunos que promova crescimento?
A técnica; se é pintura, desenho, carimbo, gesto ou modelagem, é na verdade apenas veículo motivacional. Pode e até deve se adequar simbolicamente à proposta provocadora, mas não terá consistência e certamente não irá muito além de um recurso puramente visual se não for acompanhada de uma intenção.
Nessas situações, uma sugestão que faço aos meus colegas de arte-educação é a de se dedicarem a uma boa faxina de suas atuações enquanto faxinam a garagem mofada.

quarta-feira, 16 de março de 2011

CAOS CRIATIVO

Naquele dia, se houvesse produto, seria um caldo de tintas sem controle. O que produziu na professora uma sensação de incompetência pela imprevisibilidade do processo, além da frustração de não ter, no final, nada para guardar ou colocar no mural.
O menino tinha quase oito anos, e aquela foi a primeira vez que na aula de artes ele abandonava seus desenhos repletos de significados concretos contidos em formas previsíveis para simplesmente sobrepor um monte de cores sobre um mesmo papel. A quantidade de tinta era realmente demais para a fragilidade do suporte, a ponto de invadir mãos, braços e boa parte da mesa.
Não conseguindo assistir durante nem mais um segundo aquele processo que se mostrou tão transgressor, a professora o interrompeu sob o argumento de que estaria abrindo à possibilidade de todos esparramarem tintas e se ampliar o caos.
Vale pensar na dificuldade tão comum que temos para lidar com a falta de controle; mais pelo estímulo que certas ocorrências podem produzir despertando nossos descontroles pessoais do que efetivamente pelo descontrole que supostamente podem promover em terceiros.
Não poderia ser o caos criativo e/ou emocional instalado naquele aluno o deflagrador desse processo?
Percebe-se que há, simbolicamente, uma estreita relação entre certas tintas e a fluidez dos sentimentos. Portanto, vale pensar que aquele menino poderia não estar mais dando conta de suas emoções, justificando tamanho derramamento.
É preciso lembrar também, que vivemos uma cultura caracterizada por uma fome de produtos, que não poupa os profissionais da área educacional.
Educadores falam muito em “processo”, mas, pessoalmente acredito que, para a grande maioria, o que ainda os conforta e tranqüiliza é o tradicional e palpável “resultado final”.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A ordem CONTÉM , a desordem LIBERTA

Acredito que no processo evolutivo dos indivíduos só há desenvolvimento a partir da constante alternância entre a ordem e a desordem, como aliás sempre promovem os opostos.
Durante a ordem, ou seja, no estado de contenção, criam-se contornos, limites e com eles, o individuo se apropria de si mesmo e se adequa socialmente. É também durante o estado de contenção que o individuo acomoda as experiências e informações colhidas na desordem, tornando-as conhecimento com possível aplicabilidade na vida.
Durante o estado de libertação promovido pela desordem o individuo atravessa a linha de contorno e se lança no imprevisível, no descontrole, e passa a atuar num espaço sem fronteiras.
A desordem traz o novo, o alimento modificado para o estado de contenção produzido pela ordem. É portanto, além das fronteiras, na relação com a desordem, que o individuo faz contato com o novo e dele se nutre.
Acredito que o grande agente promotor de uma ação transgressora seja a necessidade de alimento, por vezes, afetivo, identificador, físico, social ou sexual, que podem ser nomeadas como desejos. Em geral, o acesso a muitos desejos, ocorre a partir da transposição da linha que contorna e contém os indivíduos, e esta transposição pode se dar através de símbolos inconscientes e sublimações. Por exemplo, através dos sonhos, fronteiras são atravessadas sem culpa, já que os símbolos utilizados não passam pela consciência de seus significados.
Através da arte, símbolos se constroem promovendo a sublimação do inacessível. Também na arte, quando o símbolo é tratado de forma consciente, tende a construir o que podemos nomear como conceito. Pessoalmente, defino conceito na arte como um conjunto simbólico que estrutura uma obra ou intenção artística muitas vezes constituída pela transgressão.
Há, portanto, um contorno, um limite relacional que referencia o homem em si mesmo e no mundo, assim como também há um universo de alimento infinito no caos que o modifica.
É a partir dessa relação entre o finito e o infinito que o homem se desenvolve.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

RELAÇÕES COM O SENSÍVEL

Sensibilidade não é fragilidade, é percepção aguçada. Uma potência humana que pode agir a favor quando não desanda e se transforma em devaneio.
Ao se acessar a sensibilidade, é estabelecida uma relação particular entre o indivíduo que a acessa e a questão ou objeto de sua contemplação.
Acredito que esse acesso ao sensivel tende a promover a ampliação ou a intensidade do foco de uma observação, podendo nutrir esse foco observador com elementos associadores ou dissociadores, dependendo de como se faz uso dele.
Portanto o que quero dizer é que, apesar de promotor da ampliação, esse acesso ao sensível, nem sempre produz resultados positivos ao indivíduo ou à situação que é vista através da sensibilidade. Por vezes, comprometimentos emocionais desviam o indivíduo do seu ponto de interesse atual imiscuindo-o com pontos localizados nas origens de certas questões que têm se apresentado no mínimo incômodas.
Por isso, observa-se que a sensibilidade é, muitas vezes, intencionalmente controlada ou reduzida por uma pessoa, como tentativa de autoproteção. Algo como: “Não sinto, portanto não sofro”. Uma estratégia de “blindagem” para que o indivíduo defendido não estabeleça contato com a dor, frustração, rejeição, etc. No entanto, enquanto ele se protege, negando a própria sensibilidade, também não permite a transformação, revisão ou mesmo a sublimação de dores primárias (dores antigas). Essas passam então a existir sob a forma de resíduos, que influenciarão na percepção de toda e qualquer outra experiência atual e futura.
Ao reduzir a sensibilidade, ou, ao aplicar essa anestesia no sensível, o indivíduo deforma suas novas experiências e, aparentemente, reduz o seu campo de inteligência, porque limita seus recursos simbólicos. Afinal, a simbologia é uma espécie de “metaforização” do pensamento e da linguagem. Uma transcendência da linguagem puramente concreta, formal. É ela, a simbologia, que lança o pensamento e a ação no ilimitado, no poético, na arte.